Foram dias e dias seguidos a reparar na sua presença. Passava religiosamente às nove em ponto em frente à vidraça do café onde, também sem faltar, tomo o meu café perfumado com um pau de canela pela manhã. Desfilava o corpo atlético e eu pensava que boa alma não podia ali habitar tal era a pose e o pisar, como se pudesse o mundo desabar que jamais tropeçaria. Entre um gole e outro de café, franzia as sobrancelhas e assistia ao passeio em slow motion – uma certa e incompreensível mistura de antipatia e sedução. Não fora excepção, nessa manhã. Deixei uns trocos na mesa, estava pago o combustível para o início da jornada. E saí apressada pois já as páginas da agenda se atrapalhavam umas às outras, pondo-se em bicos de pés para serem vistas.
O dia volvido e um extremo cansaço ainda me deixou meter a chave à porta. Não necessito de comer, só de ligar o chuveiro e deixar que a água lave os restos de preocupação que se acumula na secretária e que, quando volto para casa, se arrastam atrás de mim. Ainda com a toalha enrolada, o corpo despido de vida, deitei-me. Em menos de uma fracção de segundo os meus olhos fecharam-se.
Era dele a mão que abria a porta do café… Com a mesma pose fez o pedido e, sem pedir licença, sentou-se na minha mesa. Estava atónita, imóvel, com o sangue a ferver-me nas veias e a pensar, infantilmente, que podia a cadeira estar manca, que podiam rasgar-se as calças, qualquer coisa que desfizesse aquele semblante que me soava a arrogância. Não disse uma palavra, apenas olhei fixamente, na esperança que se apercebesse da minha presença, que se juntassem no seu cérebro as palavras “mesa” e “ocupada”. Não desarmou. Veio o seu café e até verter todo o açúcar não cruzou um olhar comigo. Pegou lentamente na colher e foi então, no mesmo instante que a mergulhou, que, num típico terminar de suspense de um filme de terror, levantou a cabeça. Sorriu. Não sei se por simpatia se por ver a minha cara, acredito que pálida de susto.
- Chamo-me Gonçalo. E tu?
Continuei em silêncio, ali prostrada. Não me apetecia partilhar uma identidade com aquele sujeito tão seguro de que eu iria dizer até o número do bilhete de identidade nos próximos 30 segundos.
- É a primeira vez que entro aqui. Fi-lo porque te vejo todos os dias, na mesma mesa, e dá para cheirar a canela do lado de fora. Desculpa se é inconveniência sentar-me aqui, nem sei se esta cadeira costuma ser ocupada todos os dias, depois do momento em que cruzo a montra e te levo, dos olhos, no pensamento. Aceitas jantar comigo um dia destes? No restaurante ali da esquina, dizem que se come bem; aprecio sobretudo o ambiente acolhedor. Marcamos? Hoje às 21 horas? Desculpa, mais uma vez, se estou a ser inconveniente, a inundar-te com conversa, mas tinha que o fazer desta forma senão não conseguia fazê-lo jamais.
Os meus músculos deram um ar da sua graça e soltaram-se. Afinal, o momento tão esperado, o esgar de insegurança, só pelo simples prazer de ver derrotado aquele impetuoso ser. Acenei-lhe que sim e rapidamente se levantou, procurando atrapalhado o puxador da porta e saíndo.
- Leonor – gritei-lhe impulsivamente, seguindo-se um racional arrependimento.
O desfile dessa feita foi diferente, com um sorriso de orelha a orelha e um quase-acidente com o lampião que lá estava na rua das tantas outras vezes que por ali passou. Eu segui a rotina: sobre a mesa deixei os trocos e parti para mais um dia.
Adolescente, era assim que me sentia. Eram menos frequentes aqueles momentos sensatos à medida que o final da tarde chegava. Ora pensava no vestido com aqueles sapatos que comprei por me terem saltado à vista e nunca os usei, ora batia na minha própria cabeça com intuito de lhe desbaralhar as ideias.Mas a verdade é que, mal o relógio bateu as 19horas, corri para casa. Preparei-me – o tal vestido, os tais sapatos, aquele perfume suave. A dúvida não era mais a de ir ou não ir mas se usaria o cabelo solto ou apanhado! Solto, era mais leve. E lá saí.
À hora marcada estava para me receber à porta do restaurante onde mesas pequeninas tão harmoniosamente decoradas davam ar da sua presença com uma velinha acesa. Tinha uma rosa para me dar. Recebi-a com encanto. Escolhido o repasto, olhávamo-nos fixamente e as palavras não saíam. Estranhamente, foi assim até ao final da sobremesa… Eu pensava no que definiria aquele encontro. Agora que podíamos aprofundar o conhecimento não havia nada para dizer, nada para saber. Só silêncio. Talvez por se aperceber, como eu, que não estaria a resultar, decidimos despedir-nos. Cada um seguiu a sua direcção.
Acordei. Ainda enrolada na toalha, o frio entranhado nos ossos e o relógio a despertar para mais um dia igual a tantos outros. Vesti-me e fui ocupar a mesa no café de sempre. E lá estava ele, passando do mesmo modo em frente ao vidro, olhando pelo canto do olho, causando a mesma inquietude e magia que aquela distância provocava.
Há amores assim que nunca têm início muito menos têm fim…
Donna Maria