É festa na terrinha.
Já se iniciaram as comemorações religiosas e não só. Cá para mim, as comemorações resumem-se a uma roullote de farturas e churros mais perto de casa, pronta para satisfazer os meus desejos de açúcar. E assim foi! Aliás, a esta hora que vos escrevo ainda lambo as beiças… soube-me pela vida!!!
Mas minto se digo que vivo esta época de ânimo leve. Sempre que percorro as ruas mais desertas que há alguns anos atrás lembro-me do que era a romaria quando eu ainda era pequena. Quanto me diverti, passeada pela mão do meu «Bu Polónia». Sempre fui a menina dos avós!
Hoje recordo com saudade esses tempos. O meu avô vivia a festinha com muito entusiasmo. Sempre activo, envolvido nas organizações de tudo, quando me passeava com ele pela rua sentia orgulho pois cedo percebi que ele era alvo de muito respeito por parte de todos. Pertencia aos bombeiros voluntários, dinamizou a fanfarra, dava-se aos outros com a mesma entrega que aos familiares. Ainda hoje, embora no mundo dele já não exista nada do que o rodeia, emociono-me quando ouço os outros falarem desse homem que para mim é um exemplo e com quem tive a sorte de conviver grande parte da minha vida.
Felizmente ainda posso olhá-o e, mesmo que saiba que aos olhos dele já não sou a neta que ele sempre acarinhou, ainda posso ver-lhe um sorriso puro que tanto amo ver.
Humildade, trabalho, altruísmo, carinho, talento – são as palavras certas.
«Bu»
Durante muito tempo foste como meu pai, educaste-me enquanto os pais trabalhavam para que eu fosse o que sou hoje, foste o meu companheiro nas tramóias para enganar a avó quando eu não queria comer e enfrentava as ameaças dela de não sair de casa para brincar, foste aquele que me ensinou na prática todos os valores que hoje me orgulho de ter.
Hoje espero retribuir tudo isso. Para que tenhas a mais digna das vidas do alto dos teus 80 vividos anos. E desejo continuar a ver-te sorrir, enquanto souber que esse sorriso é limpo de dor e sofrimento. Mesmo que não sintas como nós, só quero que sejas feliz no meio das pessoas que te amam e que tu amas sem a consciência disso.
Tanto havia para falar de ti, tanto havia para agradecer ter aprendido, teres ensinado com a leveza dos dias passados a ouvir-te contar histórias sobre a tropa, o tempo de miúdo. O teu jeito para o desenho, a tua habilidade para os arranjos de tudo o que se possa imaginar, o teu gosto por ópera – recordarei para sempre as tardes em que te sentavas ao pé do gira-discos e ali ficávamos a ouvir todos aqueles discos de vinil que hoje guardo como o maior tesouro.
Orgulho-me do que aprendi contigo e, acredita, sempre que tiver que fazer algo na minha vida lembrar-me-ei de ti, da tua dignidade e da dádiva que foste para os que se cruzaram contigo.
Amo-te «Bu». Os meus olhos jamais se cansarão de te mostrar isso.






